quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Maçaneta do Universo


Eu sou a maçaneta do universo
As coisas todas passam as mãos acidentais em mim
As coisas todas e as não coisas como o tédio, a loucura e a morte
Principalmente a morte

Mas também as calçadas e as prostitutas
Tudo me bate como um acidente de automóveis
Tenho os pés inchados e os tendões que me doem
Como uma nova piada, o meu joelho direito incomoda mais que o esquerdo
Sou a geringonça e o corpo engraçado

Eu sou a maçaneta do universo
Sou qualquer coisa no meio do caminho
Um móvel mal colocado na sala de estar, um tapete esquecido
No chão esquecido da casa esquecida

O ar roça os meus átomos como quem quer incomodar
Eu sinto todos os vícios baterem contra mim, sou o receptáculo do universo todo
A esponja cheia d’água de todas as coisas juntas
O diário da adolescente e as angústias juvenis
Sou a desistência dos suicidas

Eu sou a maçaneta do universo
Chupam a minha língua as bocas úmidas de todas as mulheres
Contidas na boca única e real da mulher que eu tenho em casa
Mas que nem é minha

Sinto as suas genitálias em movimento frenético
Como serrotes em ação a executar o tronco de uma árvore velha
Com todo o sarcasmo, os pombos cagam na minha cabeça
Os vômitos de todos os cadáveres apodrecidos
Caem sobre o meu colo, a minha roupa, o meu nu

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