quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Poema Em Branco


Encontro-me drasticamente de frente para o papel e de costas para o resto da sala
Estou diante de um abismo calado, atolado de nada e cheio de mim
Porque sou como o papel
Sou estranhamente vazio como o papel

Eu sinto radicalmente a estranheza do infinito nevrálgico que não posso conceber
Tenho a incerteza de saber onde estou, mas nem assim me encontrar
Porque sou como o papel
Sou estranhamente vazio como o papel

Estou diante dos organismos invisíveis há horas
E ainda não escrevi, não delineei uma linha sequer

Eu tento alopradamente um mergulho direto e produndo na superfície branca e lisa
Sou o herói a rondar a cidade, as pessoas, mas eu não salvo ninguém
Estou caindo sobre o papel
Cientista do vácuo, dos pormenores do nada

Desdenho-me repetidamente sem dó por sobre o papel e de costas pra tudo na sala
Estou diante do espelho sem reflexo encrustado de branco e ausência
Estou caindo sobre o papel
Cientista do nada, dos pormenores do vácuo

Estou diante dos organismos invisíveis há horas
E ainda não escrevi, não delineei uma linha sequer

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